Inteligência Artificial

Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA): R$ 23 bi e metas

Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028: R$ 23 bilhões, 5 eixos, 54 ações, supercomputador, FIP de IA e oportunidades para empresas.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) prevê investimentos de até R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028, organizados em cinco eixos e 54 ações. Coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com apoio técnico do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), o plano leva o subtítulo "IA para o Bem de Todos" e combina recursos do orçamento federal, do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), do setor privado e de outras fontes. Para empresas e gestores públicos, o interesse prático está em saber onde esse dinheiro entra, por quais instrumentos e em que prazo.

Como o plano está organizado

O PBIA foi apresentado durante a 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e cobre o período de 2024 a 2028. Suas ações se distribuem em cinco eixos:

EixoFoco
InfraestruturaSupercomputação, data centers e modelos de linguagem
Difusão, formação, capacitação e popularização da IAFormação de pessoas e acesso da população à tecnologia
IA no setor públicoUso de IA pela administração pública
IA no setor empresarial, privado e industrialApoio à indústria, a startups e à cadeia de valor da IA
Apoio ao processo de regulação e governança da IASubsídios técnicos à regulação

Além dos eixos estruturantes, o plano tem um conjunto de ações de impacto imediato, voltadas a aplicações que gerem benefício direto para a população em prazo curto.

Infraestrutura: supercomputador e modelos em português

A meta mais citada do PBIA é adquirir um supercomputador que esteja entre os cinco mais potentes do mundo, para ampliar a capacidade nacional de processamento e de pesquisa em IA. Enquanto essa compra não se concretiza, o balanço apresentado pelo MCTI em setembro de 2025 registrou como entrega a atualização do supercomputador Santos Dumont, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC).

O eixo de infraestrutura também prevê o desenvolvimento de modelos de linguagem avançados em português, treinados com dados nacionais que reflitam características culturais, sociais e linguísticas do Brasil.

Para fornecedores de tecnologia, esse eixo abre demanda em três frentes distintas: infraestrutura física e energia para data centers, serviços de engenharia de dados para montagem de bases de treinamento em português, e integração dos modelos resultantes a aplicações de governo e de empresas.

Setor público: plataforma de IA e capacitação de servidores

O eixo dedicado aos serviços públicos inclui:

  • a criação de uma plataforma de inteligência artificial para o governo;
  • a capacitação de 115 mil servidores públicos até 2026, o que corresponde a 20% do total previsto para ser capacitado no plano;
  • o uso de IA para detectar e responder a ameaças cibernéticas contra o governo.

A meta de 115 mil servidores capacitados até 2026 é uma das poucas com prazo intermediário explícito dentro do horizonte de 2028 e, por isso, um bom indicador para acompanhar a execução. O Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial (OBIA), mantido pelo NIC.br, publica um painel de indicadores do PBIA que permite acompanhar metas como essa.

Para estados e municípios, o eixo interessa por dois motivos. Uma plataforma federal de IA pode servir de referência técnica para projetos locais, e a formação de servidores em escala nacional amplia a oferta de profissionais públicos com familiaridade com a tecnologia.

Indústria e startups: onde estão as oportunidades de negócio

O eixo de inovação empresarial reúne dois programas principais: o Programa de Fomento à Cadeia de Valor da IA e o Programa de IA voltado aos desafios da indústria brasileira. Entre as ações previstas estão:

  • apoio ao desenvolvimento de data centers nacionais;
  • apoio a startups de IA;
  • bolsas complementares a salários, para reter pesquisadores e profissionais qualificados;
  • criação do Centro Nacional de IA para a Indústria (CNIA4I).

O FIP de inteligência artificial

O instrumento mais concreto para startups até agora é o Fundo de Investimento em Participações (FIP) de inteligência artificial, conduzido por BNDESPAR e Finep. A chamada pública para selecionar o gestor foi lançada em 9 de abril de 2026 e recebeu 17 propostas. O resultado final classificou:

  1. Monashees Gestão de Investimentos Ltda., em primeiro lugar;
  2. Bossanova Gestão de Carteira de Valores Mobiliários Ltda., em segundo;
  3. Patria High Growth Gestora de Recursos Ltda., em terceiro.

Com o gestor definido, startups de IA passam a ter um canal de captação com participação de recursos públicos federais. A tese de investimento e os critérios de elegibilidade constam do edital publicado pela Finep, que deve ser consultado antes de qualquer abordagem ao gestor.

Pesquisa aplicada e INCTs

O balanço de setembro de 2025 também destacou o edital de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) voltados à inteligência artificial. Empresas que pretendem desenvolver produtos com base científica podem buscar parcerias com esses institutos, que concentram grupos de pesquisa e infraestrutura laboratorial na área.

Regulação e governança

O quinto eixo dá apoio técnico ao processo regulatório. O PBIA convive com o PL 2338/2023, o marco legal da IA aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e ainda pendente de votação na Câmara dos Deputados em setembro de 2026. O plano não cria obrigações legais; o eixo de governança se destina a apoiar tecnicamente o processo regulatório conduzido pelo Congresso e pelo Executivo.

Para empresas, a consequência prática é planejar projetos de IA financiados com recursos públicos já considerando as exigências do texto do Senado, como avaliação de impacto algorítmico para sistemas de alto risco.

Linha do tempo de execução

Os marcos públicos do plano até setembro de 2026 permitem medir o ritmo de execução:

DataMarco
2024Apresentação do PBIA 2024-2028 na 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação
Dezembro de 2024Aprovação do PL 2338/2023 no Senado, base do debate regulatório ao qual o quinto eixo dá apoio
Setembro de 2025Balanço do MCTI registra a atualização do supercomputador Santos Dumont e o edital de INCTs em IA
9 de abril de 2026Lançamento da chamada pública do FIP de IA por BNDESPAR e Finep
2026Resultado da chamada, com 17 propostas analisadas e a Monashees em primeiro lugar
Até o fim de 2026Prazo da meta de capacitação de 115 mil servidores públicos
2028Fim do horizonte de investimentos de até R$ 23 bilhões

A tabela mostra que, dois anos após a apresentação do plano, os instrumentos financeiros para empresas começaram a operar, enquanto a principal meta de infraestrutura, o supercomputador entre os cinco maiores do mundo, segue em andamento.

Como empresas e órgãos podem se posicionar

Um plano com horizonte de quatro anos e execução por vários agentes exige acompanhamento sistemático. A sequência abaixo organiza esse trabalho:

  1. Identifique em qual eixo seu projeto se encaixa. Uma startup de visão computacional para a indústria dialoga com o eixo de inovação empresarial; uma secretaria municipal que quer automatizar atendimento dialoga com o eixo de serviços públicos.
  2. Mapeie o agente financiador de cada linha. BNDES e Finep conduzem o FIP de IA; editais de pesquisa e INCTs seguem calendário próprio do sistema de ciência e tecnologia.
  3. Acompanhe o painel de indicadores do OBIA para saber quais ações já estão em execução e quais ainda dependem de regulamentação ou de orçamento.
  4. Prepare documentação técnica e de governança desde o início: origem dos dados, testes de viés, responsáveis. Esses elementos antecipam as exigências do PL 2338/2023.
  5. Para órgãos públicos, planeje a capacitação das equipes considerando a meta federal de 115 mil servidores até 2026 e verifique quais cursos oferecidos podem ser incorporados ao plano de desenvolvimento de pessoas do órgão.
  6. Considere parcerias com INCTs e universidades para projetos que exijam pesquisa.

Erros comuns na leitura do PBIA

O valor de R$ 23 bilhões é o total previsto para o período, somando fontes públicas e privadas. Ele não corresponde a recursos já disponíveis nem a um único fundo com edital aberto. Cada ação depende do orçamento anual e do instrumento específico que a executa.

Também é comum confundir o PBIA com a regulação. O plano trata de investimento e capacidades; as obrigações legais para quem desenvolve ou usa IA virão do marco legal em discussão no Congresso.

Os pontos a monitorar até 2028 são a efetiva aquisição do supercomputador de porte mundial, a primeira rodada de investimentos do FIP de IA sob gestão da Monashees, o cumprimento da meta de capacitação de servidores prevista para 2026 e a entrada em operação da plataforma de IA do governo federal.

Fontes

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