Mobilidade urbana orientada por dados: o que as cidades podem aprender
Mobilidade urbana orientada por dados: semáforos adaptativos em 1.677 cruzamentos de SP, Pesquisa OD 2023, SIMOB e o prazo dos planos da Lei 12.587/2012.
Mobilidade urbana orientada por dados é a prática de planejar e operar o trânsito e o transporte público com base em medições contínuas, e não apenas em contagens pontuais. O exemplo brasileiro mais recente com resultado publicado é o de São Paulo: a prefeitura informou em 2026 que levou semáforos adaptativos a 1.677 cruzamentos desde 2023 e registrou queda de 12,16% nos índices de lentidão nas regiões atendidas, com investimento de R$ 725,5 milhões nessa etapa. Os números ajudam a responder uma dúvida frequente de gestores: dados de mobilidade geram ganho mensurável, desde que estejam ligados a uma decisão operacional.
O que os dados mostram sobre os deslocamentos
Antes de escolher tecnologia, a cidade precisa saber como as pessoas se deslocam. Duas bases nacionais e metropolitanas recentes dão o quadro.
Pesquisa Origem e Destino 2023 (Região Metropolitana de São Paulo)
A Pesquisa OD do Metrô de São Paulo tem série histórica iniciada em 1967. A edição de 2023, divulgada em fevereiro de 2025, teve trabalho de campo entre agosto de 2023 e maio de 2024, com 32 mil domicílios válidos e 79 mil pessoas pesquisadas. Os principais resultados:
- a região metropolitana registrou 35,6 milhões de viagens diárias, contra 42 milhões em 2017, uma queda de 15,1% e a primeira redução da série histórica;
- 70,5% das viagens foram feitas por modos motorizados (coletivos e individuais) e 29,5% a pé ou de bicicleta;
- o metrô respondeu por 22,6% das viagens por modo principal no transporte coletivo, ante 22,2% em 2017.
A queda no total de viagens reflete em parte os efeitos da pandemia e a adoção de trabalho híbrido. Para o planejamento, o dado mais relevante é que a demanda mudou de forma, o que torna redes e horários desenhados com base em pesquisas antigas menos aderentes à realidade.
SIMOB da ANTP
O Sistema de Informações da Mobilidade Urbana (SIMOB), mantido pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), acompanha desde 2006 os municípios com mais de 60 mil habitantes. A edição com dados de 2023 e 2024 cobriu 533 cidades, que somam 65% da população brasileira. O total de viagens em 2023 ficou cerca de 16% abaixo de 2019. Em 2024 houve leve recuperação, de 1,3%, para 57,8 bilhões de viagens por ano, sem alterar o quadro estrutural de perda de espaço do transporte coletivo.
Outro dado da ANTP interessa diretamente às finanças municipais. Em 2023, a associação estimou que a cobrança de estacionamento em vagas públicas poderia gerar R$ 35,3 bilhões por ano para investimento em mobilidade urbana. A estimativa só se transforma em política quando a cidade sabe quantas vagas tem, onde estão e qual a ocupação por horário, o que depende de inventário e monitoramento.
| Base de dados | Responsável | Cobertura | Dado principal |
|---|---|---|---|
| Pesquisa OD 2023 | Metrô de São Paulo | Região Metropolitana de São Paulo | 35,6 milhões de viagens diárias, queda de 15,1% sobre 2017 |
| SIMOB 2023/2024 | ANTP | 533 municípios acima de 60 mil habitantes | 57,8 bilhões de viagens em 2024 |
| Estimativa de estacionamento | ANTP | Nacional | Potencial de R$ 35,3 bilhões por ano |
| Semáforos adaptativos | Prefeitura de São Paulo | 1.677 cruzamentos | Lentidão 12,16% menor nas áreas atendidas |
A obrigação legal: planos de mobilidade
A Política Nacional de Mobilidade Urbana, instituída pela Lei 12.587/2012, exige plano de mobilidade dos municípios obrigados. O prazo original era de três anos e foi alterado quatro vezes pelo Congresso. A lei sancionada em 5 de dezembro de 2023 fixou os limites atuais: 12 de abril de 2024 para municípios com mais de 250 mil habitantes e 12 de abril de 2025 para os demais.
O atraso é amplo. Dados do Ministério das Cidades divulgados em outubro de 2023 indicavam que 84% dos municípios com até 250 mil habitantes e 22% dos municípios acima desse porte ainda não tinham plano elaborado. Com os prazos vencidos, municípios sem plano estão em descumprimento da lei.
A elaboração do plano é a ocasião natural para montar a base de dados que a cidade usará depois: contagens, pesquisa de origem e destino, cadastro de linhas e pontos, inventário de vagas e registros de sinistros.
Três aplicações com resultado verificável
Controle semafórico adaptativo
São Paulo usa o SCATS (Sydney Coordinated Adaptive Traffic System), que mede o fluxo de veículos em tempo real e ajusta ciclos e tempos de verde conforme a demanda de cada cruzamento. Além da queda média de 12,16% na lentidão, a capacidade de circulação subiu 5,72% nas áreas contempladas.
Os resultados variam por região. Nas zonas Sudeste e Leste, a capacidade aumentou 12,05% e a lentidão caiu 26,04%. Na Avenida Indianópolis, na Zona Sul, a lentidão recuou 66,2% com aumento de 5% no volume de veículos. Na Avenida Paes de Barros, na Zona Leste, a redução foi de 57,1%, com 16,7% mais fluxo. A meta da prefeitura é chegar a 2.583 cruzamentos.
A lição para outras cidades é que o ganho se concentra em corredores com demanda variável ao longo do dia. Em cruzamentos com fluxo estável, planos semafóricos fixos bem calibrados podem entregar resultado parecido a custo menor.
Dados colaborativos de aplicativos
A CET de São Paulo firmou parceria com o Waze para acessar informações da plataforma no gerenciamento de tráfego. Um uso inicial foi o repasse automático à CET de semáforos quebrados reportados por usuários do aplicativo. É um exemplo de ganho sem investimento em sensores: a cidade passa a receber alertas em tempo real a partir de uma fonte que já existe.
Acordos desse tipo exigem cuidado com termos de uso, anonimização e continuidade. Se a base depende de uma empresa privada, o município deve saber o que ocorre se a parceria acabar.
Transporte público com dados abertos
A SPTrans mantém a API Olho Vivo, aberta a desenvolvedores mediante cadastro, com posição em tempo real dos ônibus, previsão de chegada e informações de linhas e paradas. A programação de linhas é publicada no padrão GTFS (General Transit Feed Specification), formato internacional que permite que aplicativos de rota incorporem os dados sem integração específica.
Publicar GTFS é uma das medidas de menor custo e maior alcance para cidades médias. O passageiro passa a ver horários e itinerários nos aplicativos que já usa, e a prefeitura ganha uma base padronizada para analisar cobertura, frequência e sobreposição de linhas.
Passo a passo para começar
- Levante as fontes que já existem: bilhetagem eletrônica, GPS da frota, contadores de tráfego, registros de sinistros, multas e reclamações da ouvidoria. Em geral, parte está com concessionárias e precisa de cláusula contratual para ser compartilhada.
- Publique a rede de transporte em GTFS e mantenha o arquivo atualizado a cada mudança de linha ou horário.
- Exija, nos contratos de ônibus, envio contínuo da posição dos veículos e dos dados de bilhetagem em formato aberto, com prazo e penalidade.
- Escolha poucos indicadores de acompanhamento, como velocidade média nos corredores, cumprimento de viagens programadas, tempo de espera e sinistros com vítimas por região.
- Priorize projetos com antes e depois mensurável. O caso dos semáforos de São Paulo só produz números porque os índices de lentidão foram medidos antes da intervenção.
- Use o plano de mobilidade para consolidar a pesquisa de origem e destino. Cidades menores podem usar amostras reduzidas combinadas com dados de bilhetagem.
- Defina regras de proteção de dados pessoais antes de cruzar bases de bilhetagem com cadastros de usuários.
- Publique painéis com os indicadores. Transparência reduz contestação e facilita o controle externo.
Erros comuns
Instalar sensores sem dono do dado é o primeiro. Contadores e câmeras ficam sob contratos diferentes, e ninguém é responsável por consolidar a informação.
O segundo é confundir painel com gestão. Um centro de operação com telas e sem protocolo de resposta (quem decide mudar um plano semafórico, em quanto tempo) não altera o trânsito.
O terceiro é planejar com dados defasados. A Pesquisa OD 2023 mostrou que o volume de viagens na maior metrópole do país caiu 15,1% em relação a 2017. Redes desenhadas antes de 2020 precisam ser revistas com dados recentes.
O quarto é contratar tecnologia proprietária sem cláusula de exportação de dados. A troca de fornecedor fica cara e o histórico se perde.
O que monitorar
Para os próximos ciclos de gestão, três marcos importam. Os municípios que perderam os prazos de abril de 2024 e abril de 2025 precisam regularizar seus planos de mobilidade, e novas mudanças na Lei 12.587/2012 podem ocorrer. As próximas edições do SIMOB vão indicar se a recuperação de 1,3% observada em 2024 se sustenta. A expansão dos semáforos adaptativos de São Paulo rumo à meta de 2.583 cruzamentos deve mostrar se o ganho médio se mantém em áreas com menos congestionamento.
Fontes
- Semáforos inteligentes reduzem lentidão e tornam o trânsito mais fluido em São Paulo, Prefeitura de São Paulo, 2026
- Pesquisa OD 2023 reforça protagonismo do Metrô na mobilidade da metrópole, Agência SP, 2025
- Pesquisa Origem e Destino 2023, Metrô de São Paulo
- Colapso silencioso: transporte coletivo perde espaço nas cidades brasileiras, Metropolis, 2026
- Cobrar estacionamento em vagas públicas pode gerar R$ 35,3 bilhões por ano para investimento em mobilidade urbana, diz ANTP, Technibus, 2023
- Lei com mais prazo para elaborar Planos de Mobilidade Urbana é sancionada, Agência Senado, 2023
- Lei nº 12.587/2012, Presidência da República
- Prefeitura de São Paulo anuncia parceria com Waze, Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte
- API do Olho Vivo: documentação, SPTrans