Robótica

Robôs de serviço e atendimento: dados da IFR e onde já funcionam

Robôs de serviço em números: 199 mil unidades profissionais vendidas em 2024, segundo a IFR. Logística, limpeza, hotelaria, restaurantes e casos no Brasil.

As vendas mundiais de robôs de serviço para uso profissional passaram de 199 mil unidades em 2024, alta de 9% sobre 2023, segundo o relatório World Robotics 2025 da International Federation of Robotics (IFR), divulgado em outubro de 2025. Mais da metade desse volume foi para transporte e logística. Robôs de recepção, orientação e atendimento ao público, que costumam chamar mais atenção, venderam cerca de 42 mil unidades e recuaram 11%. Os números mostram onde a tecnologia já se paga: em tarefas repetitivas de deslocamento, limpeza e manuseio, com a falta de mão de obra como principal motivação citada pela IFR.

O que a IFR chama de robô de serviço

A IFR separa os robôs industriais, usados em manufatura, dos robôs de serviço, que executam tarefas úteis para pessoas ou equipamentos fora da linha de produção. Os robôs de serviço dividem-se em dois grupos:

  • robôs profissionais, operados ou supervisionados por pessoal treinado em empresas, hospitais, hotéis, armazéns e espaços públicos;
  • robôs de consumo, vendidos para uso doméstico, como aspiradores e cortadores de grama.

Os dados mais recentes publicados pela IFR para esse segmento estão no World Robotics 2025 e se referem a 2024. A federação conhece 944 fabricantes de robôs de serviço no mundo, e a edição de 2025 foi baseada em uma amostra de 294 fornecedores. Por isso, os números devem ser lidos como estimativas de mercado, com cobertura parcial.

Os números de 2024 por aplicação

Aplicação (uso profissional)Unidades vendidas em 2024Variação sobre 2023
Transporte e logística102.900+14%
Hotelaria e atendimentomais de 42.000-11%
Limpeza profissionalmais de 25.000+34%
Agriculturacerca de 19.500-6%
Robôs médicoscerca de 16.700+91%
Total profissionalmais de 199.000+9%

No segmento de consumo, as vendas cresceram 11% e chegaram perto de 20 milhões de unidades em 2024. Robôs para tarefas domésticas, como limpeza de piso e corte de grama, formam de longe o maior grupo.

Na categoria de hotelaria, a IFR inclui robôs de orientação móvel, pontos de informação em ambientes públicos e telepresença, que respondem pela maior parte das unidades. Foi a única grande categoria profissional, ao lado da agricultura, com queda em 2024.

Aluguel em vez de compra

Um dado do relatório tem efeito direto sobre a decisão de empresas brasileiras: a frota operada no modelo de robô como serviço (robot-as-a-service, ou RaaS) cresceu 31% e passou de 24.500 unidades. Nesse modelo, a empresa paga assinatura ou aluguel, e o fornecedor responde por manutenção, atualização de software e, em muitos casos, substituição do equipamento.

Para quem ainda testa a aplicação, o aluguel reduz o risco de ficar com um ativo parado. Para o fornecedor, obriga a manter o robô funcionando, o que alinha incentivos.

Onde já funcionam no Brasil

Centros de distribuição

O caso brasileiro mais documentado de 2025 é o do Mercado Livre. Em setembro de 2025, a empresa anunciou o uso de 125 robôs autônomos que retiram produtos das prateleiras em dois centros de distribuição em Cajamar (SP), numa área de 670 m². O sistema permite separar até 105 mil itens por dia e reduziu em até 25% o ciclo de processamento de pedidos com vários itens, cerca de uma hora a menos no processo completo. Antes disso, a empresa já operava 334 robôs no modelo "shelves to person", em que a prateleira vai até o operador.

O caso ilustra o segmento de transporte e logística, o maior da estatística da IFR. Segundo a empresa, a expansão está concentrada em Cajamar, com previsão de levar a tecnologia a outros centros no longo prazo.

Restaurantes e hotéis

Robôs garçons e de serviço de quarto da chinesa Keenon, descrita como a maior fabricante do segmento, são vendidos no Brasil pela Quality System. O modelo T5, usado em restaurantes e praças de alimentação de shoppings, recebe clientes, os conduz às mesas, entrega pratos e bebidas e leva louça suja para a cozinha. Carrega quatro bandejas de 10 kg por vez. Em hotéis, os robôs se conectam ao elevador por Wi-Fi e fazem entregas nos quartos.

Em fevereiro de 2024, a empresa informou preços de R$ 100 mil a R$ 500 mil por unidade, conforme o modelo, e aluguel a partir de R$ 10 mil nos modelos de entrada. Uma rede hoteleira do interior paulista implantou três robôs garçons em restaurantes de Campinas, Indaiatuba e Paulínia.

Limpeza profissional

A limpeza foi o segmento profissional que mais cresceu em 2024 entre os grandes, com alta de 34%. No Brasil, fornecedores oferecem para indústrias, hospitais e shoppings modelos como os Pudu CC1 e MT1, que, segundo o distribuidor Robotec, limpam até 15 mil m² por dia. Esse é um número de catálogo, e o desempenho real depende de layout, obstáculos e tipo de piso.

Hospitais

No Hospital Israelita Albert Einstein, robôs da startup brasileira Alabia fazem entregas de medicamentos da farmácia. Os robôs chamam o elevador por internet das coisas e escolhem o andar de destino sem intervenção humana. Em 2024, os robôs médicos foram a categoria de maior crescimento proporcional na estatística da IFR, com alta de 91%.

Maturidade por aplicação

Os dados da IFR e os casos brasileiros permitem uma leitura simples do grau de maturidade de cada aplicação.

AplicaçãoSinal nos dadosSituação no Brasil
Logística em armazénsMaior volume mundial e alta de 14% em 2024Uso em escala em centros de distribuição, como o do Mercado Livre em Cajamar
Limpeza de grandes áreasAlta de 34% em 2024Oferta comercial de venda e aluguel para indústrias, hospitais e shoppings
Entrega interna em hospitaisRobôs médicos com alta de 91% em 2024Casos em hospitais privados, como o Einstein
Restaurantes e hotéisCategoria de hotelaria com queda de 11% em 2024Implantações pontuais, com aluguel a partir de R$ 10 mil
Recepção e orientação ao públicoMaior parte da categoria de hotelariaUso ainda restrito a projetos específicos

A leitura da tabela é direta: aplicações com tarefa bem definida e ganho de produtividade mensurável crescem mais. Aplicações cujo principal atrativo é a interação com o público têm resultado mais irregular.

E no setor público

Órgãos públicos que avaliam robôs de serviço tendem a encontrar três usos com base em casos existentes: logística interna em hospitais e almoxarifados, limpeza de grandes áreas como terminais e centros de convenções, e orientação ao público em locais de grande circulação. Nos dois primeiros, a métrica de produtividade é clara e facilita a justificativa da contratação. No terceiro, a avaliação precisa incluir acessibilidade, alternativa de atendimento humano e tratamento de imagens e voz dos cidadãos. Em qualquer caso, o modelo de locação com manutenção incluída costuma simplificar a contratação e reduzir o risco de equipamento parado por falta de peças ou suporte.

Critérios de decisão antes de comprar ou alugar

A experiência acumulada nos segmentos acima permite algumas perguntas objetivas.

  1. A tarefa é repetitiva e envolve deslocamento? Transporte de itens, rondas e limpeza de grandes áreas são as aplicações com maior volume de vendas. Conversar com o cliente, resolver exceções e lidar com reclamações continuam dependentes de pessoas.
  2. O ambiente é previsível? Robôs móveis precisam de mapas estáveis. Corredores obstruídos, rampas e pisos irregulares reduzem o desempenho.
  3. Há integração necessária? Elevadores, portas automáticas, sistemas de pedidos do restaurante e sistemas de gestão de armazém precisam conversar com o robô. Pergunte ao fornecedor quais integrações já existem.
  4. Quem opera e quem mantém? Mesmo robôs autônomos precisam de alguém que recarregue, limpe sensores, trate falhas e reconfigure rotas.
  5. Compra ou RaaS? Para pilotos e operações sazonais, o aluguel costuma fazer mais sentido. Para operações estáveis e de alto volume, compare o custo total em cinco anos.
  6. Como medir? Defina antes a métrica: itens separados por hora, metros quadrados limpos por turno, tempo de entrega interno ou horas de equipe liberadas para outras tarefas.

Erros comuns

  • Escolher o robô pelo apelo visual para o público, sem cálculo de produtividade.
  • Implantar sem ajustar o processo. No caso do Mercado Livre, o ganho divulgado está ligado à consolidação de pedidos com vários itens no mesmo pacote.
  • Ignorar a coleta de dados. Robôs com câmeras em espaços públicos tratam imagens de pessoas, e esse tratamento precisa de base legal e transparência nos termos da LGPD.
  • Não prever plano para falhas: o que acontece com o atendimento quando o robô para.

O que esperar das próximas edições

A IFR aponta dois fatores estruturais para a demanda: a escassez de trabalhadores e o envelhecimento da população. Ambos também estão presentes no Brasil. Os pontos a acompanhar na próxima edição do relatório de robôs de serviço são a continuidade do crescimento em logística e limpeza, a recuperação ou não do segmento de hotelaria e a participação crescente do modelo RaaS. No Brasil, a expansão da robótica logística do Mercado Livre para além de Cajamar e a adoção de robôs de entrega em hospitais públicos são os sinais mais concretos a monitorar.

Fontes

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