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Agro digital: conectividade e agricultura de precisão em números

Agro digital no Brasil: só 33,9% da área agrícola tinha 4G ou 5G em 2025, diz a ConectarAgro. Dados do IBGE, da Embrapa, crédito e critérios de projeto.

A agricultura de precisão depende de sinal, e o sinal ainda não chega à maior parte das lavouras brasileiras. Pelo Indicador de Conectividade Rural (ICR) da ConectarAgro, divulgado na Agrishow de 2025, a parcela da área de uso agropecuário coberta por 4G ou 5G passou de 18,7% para 33,9% em um ano. O avanço foi rápido, mas dois terços da área produtiva continuam sem cobertura móvel, o que limita o uso de telemetria de máquinas, sensores de campo, monitoramento remoto e aplicações de inteligência artificial que dependem de dados em tempo quase real.

O retrato da conectividade no campo

Os números disponíveis vêm de fontes com metodologias diferentes, e convém lê-los separadamente. A primeira distinção é entre domicílio rural conectado e área produtiva coberta. Uma casa na zona rural pode ter internet por fibra ou satélite enquanto a lavoura a três quilômetros dali segue sem sinal.

IndicadorValorFonte e período
Domicílios rurais com internet88,0%IBGE, PNAD Contínua TIC, 2025
Domicílios urbanos com internet95,8%IBGE, PNAD Contínua TIC, 2025
Diferença urbano x rural7,8 pontos percentuais (era 41,5 em 2016)IBGE, PNAD Contínua TIC
Área agrícola com 4G ou 5G33,9% (era 18,7%)ConectarAgro/UFV, 2025 x 2024
Imóveis rurais com sinal 4G ou 5G48,1% (era 37,4%)ConectarAgro/UFV, 2025 x 2024
Estabelecimentos agropecuários com internet1.430.156IBGE, Censo Agro 2017

No domicílio, a distância entre cidade e campo quase fechou. Segundo o IBGE, a proporção de domicílios rurais com internet foi de 35,0% em 2016 para 88,0% em 2025, contra 95,8% na zona urbana. No total, o país tinha 76 milhões de domicílios conectados em 2025, 95% do total.

Na área de produção, o quadro é outro. O ICR, desenvolvido pela ConectarAgro em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV) a partir de 2024, cruza dados do Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural (Sicar) com os dados de cobertura da Anatel. Na medição de abril de 2024, 19% da área disponível para uso agrícola tinha 4G ou 5G; em outubro de 2024, 23,8%; em 2025, 33,9%. O ICR médio por município subiu de 0,455 para 0,493 no mesmo intervalo, uma alta mais modesta, porque a expansão se concentrou no Sul e no Sudeste e em corredores próximos a rodovias, como a BR-153 em Goiás e Tocantins e a BR-158 em Mato Grosso.

A TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, aponta a mesma direção por outro ângulo: 77% da população rural era usuária de internet em 2025, contra 86% da urbana. Entre os domicílios rurais sem internet, a falta de oferta do serviço na região foi citada por 8,9% (12,1% em 2024), ante 0,4% na área urbana.

O que o Censo Agro mostra e o que ainda não mostra

O Censo Agropecuário 2017 do IBGE é a base oficial mais completa sobre os estabelecimentos rurais. Naquele levantamento, 1.430.156 produtores declararam ter acesso à internet, contra 75 mil em 2006, um crescimento de cerca de 1.900%. Desse total, 659 mil acessavam por banda larga e 909 mil por internet móvel (as categorias se sobrepõem). O mesmo censo registrou 1.229.907 tratores, 49,9% a mais que em 2006.

Os dados têm quase uma década. A próxima edição, o Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola, foi adiada por restrição orçamentária. O cronograma divulgado pelo IBGE prevê coleta pela internet a partir de março de 2027 e coleta presencial a partir de junho de 2027, com validação em campo até outubro. A operação completa foi estimada em R$ 3,4 bilhões, e os testes-piloto seguem até novembro de 2026. Os recenseadores trabalharão com tablets e imagens de satélite, e o questionário incluirá temas como sucessão familiar, meio ambiente e perdas de produção.

Para quem planeja investimentos em tecnologia no campo, a implicação é prática: até a divulgação dos resultados do novo censo, os dados de adoção de tecnologia por estabelecimento vêm de pesquisas amostrais e setoriais, não de uma contagem oficial atualizada.

Adoção de tecnologia digital pelos produtores

A pesquisa "Agricultura digital no Brasil: tendências, desafios e oportunidades", conduzida pela Embrapa em parceria com o Sebrae e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e divulgada em 2020, ouviu 504 produtores rurais de todos os estados e do Distrito Federal, além de 249 empresas e prestadores de serviço em agricultura digital. O resultado mais citado é que 84% dos agricultores já usavam ao menos uma tecnologia digital na produção.

As barreiras apontadas pelos produtores ajudam a dimensionar projetos:

Dificuldade relatadaProdutores
Alto valor de investimento em máquinas, equipamentos ou aplicativos67,1%
Problemas ou falta de conexão na área rural47,8%
Custo de contratar prestadores de serviço especializados44,0%
Falta de conhecimento sobre as tecnologias mais adequadas40,9%

A amostra foi coletada por questionário on-line, o que tende a favorecer produtores já conectados. O percentual de 84% descreve esse público e não deve ser extrapolado para todos os estabelecimentos do país. Ainda assim, a ordem das barreiras é consistente com os indicadores de cobertura: custo em primeiro lugar e conectividade em segundo.

Infraestrutura: obrigações do 5G e programas públicos

Boa parte da expansão recente vem de obrigações regulatórias. O edital do leilão do 5G, conduzido pela Anatel em 2021, obrigou as vencedoras a levar 4G ou tecnologia superior a todas as rodovias federais pavimentadas: 35.784 quilômetros em 2.349 trechos. A meta original era de 31.417 quilômetros; o número subiu com a conversão de R$ 2,6 bilhões do ágio em novos compromissos, que também incluíram 1.700 localidades com 5G e backhaul de fibra em mais 27 municípios. O cronograma exigia ao menos 119 trechos até 31 de dezembro de 2023 e cobertura completa até 31 de dezembro de 2029. Como as rodovias cortam regiões produtoras, esses compromissos explicam parte do crescimento do ICR ao longo de eixos como a BR-153 e a BR-158.

Do lado do crédito para operadoras, o Ministério da Agricultura e Pecuária lançou em setembro de 2023, com o BNDES e os ministérios das Comunicações e do Desenvolvimento Social, o Rural + Conectado. O programa reservou R$ 1,2 bilhão do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) em crédito reembolsável com juros subsidiados e prazo de 15 anos, com 2.315 pontos de conexão previstos na fase inicial, no Nordeste e em áreas prioritárias do Norte.

Há também iniciativas estaduais. O Paraná, por exemplo, instituiu o programa ParanáConectado pela Lei estadual nº 22.788/2025 para ampliar a cobertura móvel em áreas rurais.

Crédito para o produtor investir em tecnologia

A principal linha federal para agricultura de precisão é o Inovagro (Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica na Produção Agropecuária), operado com recursos do BNDES e de outros agentes. A linha financia equipamentos e serviços de agricultura de precisão, do planejamento da amostragem de solo aos mapas de aplicação de fertilizantes e corretivos, além de sistemas de conectividade para gestão remota da propriedade.

Condição do InovagroPlano Safra 2025/26Plano Safra 2026/27
RecursosR$ 6,8 bilhõesR$ 4,2 bilhões
Taxa de juros12,5% ao ano11,5% ao ano
Limite individualR$ 4 milhõesR$ 4 milhões
Limite coletivoR$ 12 milhõesR$ 15 milhões

No Plano Safra 2026/27, a linha tem prazo de até dez anos, com dois de carência. O plano empresarial totaliza R$ 525,1 bilhões, alta de 1,7% sobre o ciclo anterior (R$ 516,2 bilhões), sendo R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimento. Na safra 2025/26, o antigo Moderagro foi incorporado ao Inovagro.

Como estruturar um projeto de agricultura de precisão conectada

Os dados acima sugerem uma ordem de decisões para produtores, cooperativas, prefeituras de municípios agrícolas e empresas que fornecem tecnologia ao campo.

  1. Mapeie a cobertura real da área produtiva, e não apenas da sede. O ICR usa o Sicar para cruzar os limites dos imóveis com a cobertura informada à Anatel; o mesmo raciocínio vale para a propriedade. Teste o sinal nos talhões, nos pontos de abastecimento e nos silos.
  2. Defina quais aplicações precisam de dados em tempo real. Telemetria de frota, monitoramento de irrigação e alertas de clima exigem conexão contínua. Mapas de produtividade e prescrições de taxa variável podem ser sincronizados depois, com armazenamento local na máquina.
  3. Escolha a arquitetura de rede pela aplicação. As opções incluem rede privada 4G na faixa de 700 MHz (a tecnologia inicial promovida pela ConectarAgro), acordos com operadoras, redes de baixa potência para sensores e enlaces via satélite. A combinação costuma ser mais barata que tentar cobrir toda a área com uma única tecnologia.
  4. Exija padrões abertos de dados. A ConectarAgro, que reúne empresas como AGCO, CNH Industrial, Jacto, Nokia, Solinftec, TIM e Trimble, defende soluções abertas justamente para que máquinas e plataformas de marcas diferentes troquem dados.
  5. Planeje a capacitação junto com a compra. Na pesquisa da Embrapa, 40,9% dos produtores não sabiam quais tecnologias eram adequadas; sem treinamento, o equipamento é subutilizado.
  6. Enquadre o investimento na linha de crédito certa antes de fechar a proposta técnica. As condições do Inovagro mudam a cada Plano Safra, e a elegibilidade de itens de conectividade deve constar do orçamento apresentado ao agente financeiro.

Erros comuns

Comprar sensores e software antes de resolver a conectividade é o erro mais frequente. Outro é tratar a cobertura da sede como cobertura da fazenda. Um terceiro é firmar contratos de plataforma sem cláusula de portabilidade dos dados históricos da lavoura, o que prende o produtor a um fornecedor.

O que monitorar até 2027

Três calendários importam para quem investe em agro digital. O primeiro é a próxima medição do ICR da ConectarAgro, que mostra se a expansão sai dos corredores rodoviários do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. O segundo é o cronograma das obrigações do leilão do 5G, com cobertura integral das rodovias federais pavimentadas prevista para o fim de 2029. O terceiro é o Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola, com coleta prevista para 2027: seus resultados vão substituir os números de 2017 e mostrar quantos estabelecimentos de fato usam internet e tecnologia na produção.

Fontes

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